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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Quando a mãe maltrata*


A mulher que comete violência com o próprio filho pode estar com depressão pós-parto, psicose ou reproduzindo uma relação que já viveu com sua mãe.
“Se o bebê morreu, não há problema: tem-se outro”. A frase que hoje soaria como uma brutalidade era recorrente até meados do século XVI-II, quando a infância não era valorizada e sequer se sabia definir o que eram aqueles seres pequenos e sem condições de se manter sozinhos. Até esse período, eram chamados de adultos pequenos e ainda não havia uma divisão entre infância, adolescência e fase adulta. A francesa Elizabeth Badinter, em seu livro “Um amor conquistado”, explica que a frieza e indiferença do pai e principalmente da mãe em relação a seus filhos eram, na verdade, uma espécie de couraça sentimental, onde estariam seguros de qualquer sentimento causado pela perda de uma criança com tantas possibilidades de morrer antes de um ano.
Os laços sentimentais entre mãe e filho mudaram. Os dois se tornaram mais unidos a partir do momento em que se reconhece que a criança precisa de cuidados especiais e a maternidade passa a ter maior relevância. Mas o descaso, e o que é pior, a violência de pais contra suas crianças, ainda chamam atenção pela dificuldade de se compreender os motivos de se cometer tal ato. Para a psicóloga Roberta Cavalcante, “na forma de se relacionar com o filho, você repete o que viveu na relação com sua mãe. Quando se tem uma relação mal desenvolvida com a mãe, provavelmente levará inconscientemente para a relação com o filho”.
Uma causa freqüente de agressões aos filhos é o estado de depressão pós-parto que pode acometer a mulher até algumas semanas depois do nascimento do bebê. Segundo o ginecologista Wagner Gonzaga, o distúrbio pode ser classificado em três tipos, por grau de severidade: a tristeza materna, a depressão pós-parto em si e a psicose puerperal. A psicóloga de família paulista Gilda Monteiro, alerta que “quando a depressão pós-parto é diagnosticada, outras pessoas devem ser mobilizadas para cuidar da criança e da mãe”. Na avaliação dela, “a melhor maneira de se prevenir é ter alguém com quem conversar durante a gravidez, mesmo que seja um serviço de psicologia”.
Gilda afirma qe a mulher se sente solitária durante a gravidez e no pós-parto. Como o distúrbio faz parte do sistema familiar, deve ser tratado em terapia conjunta com o marido e com acompanhamento ginecológico. “Quando a violência ocorre fora de uma situação de psicose ou depressão pós-parto, é porque a mulher foi maltratada, negligenciada, abandonada ou rejeitada durante a infância”, explica. “Quando há morte da criança, geralmente foi por espancamento. Quanto mais a criança chora, mais apanha”, acrescenta.
A psicanalista Regina Maia Soares considera que no nascimento de uma criança exista uma ambivalência muito grande em relação à vida e à morte. “Enquanto o bebê nasce, fica na mulher a placenta morta. As experiências de separação do filho do corpo da mulher são experiências de morte”. Além disso “as identidades, tanto da mãe, como dos familiares, no pós-parto, ficam desordenadas. Se é o primeiro filho, o pai não é mais só o marido, o profissional, o filho”, completa. Para ela, essa é uma fase difícil, que pode desencadear um provável distúrbio.
O aborto e o abandono podem ser considerados sérias formas de violência contra um filho. Ilegal na maior parte dos países, o aborto ainda continua sendo objeto de discussão moral que questiona até que ponto a mulher tem direito sobre a sua vida e a da criança que carrega. No Brasil, o aborto forçado, aquele feito por escolha da gestante, prevê pena de um a três anos de prisão para ela. Já para mãe que abandonam um filho, a pena vai de seis meses a três anos; se resultar em lesão, a reclusão será de um a cinco anos; e em caso de morte, vai de quatro a doze anos.
.*Matéria publicada no Jornal O Povo, de Fortaleza, em maio de 2003.

3 comentários:

Carlos: disse...

Post muito bom, vou começar a acompanhar seu blog!!

Anônimo disse...

alice . isso é real. toda gestante precisa de um psicologo durante e depois do parto.

Candice Alcântara disse...

Alice,

Sem dúvida é real, mas eu diría que seria ótimo não apenas que toda gestante, mas que todos nós passássemos por terapia. A gestante sem dúvida passa por uma profusão de mudanças hormonais e isto mexe com o humor algumas vezes menos, mas outras de forma absurda, mas não significa que toda mulher desenvolva algum comportamento não aceitável durante ou após a gestação. Isto não é a regra!

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